Manuela Silva
Novembro 2013
Olhar © Bettmann - Corbis [DC]
 

Praticar um olhar empático e de comunhão com o outro

Os valores humanos do amor, da sensibilidade, do cuidado, da comensalidade e da veneração  podem impor limites à voracidade do poder-dominação e à exploração-produção-acumulação.
Leonardo Boff, in Para não perecer: a convivialidade necessária, 2012.

Não é novidade reconhecer que a primeira década do século XXI não trouxe boas notícias ao mundo ocidental. Afeiçoados à ideia de um progresso tecnológico continuado e ao crescimento económico ilimitado, compatíveis com bem-estar, qualidade de vida, coesão social, democracia e justiça social, os povos do chamado mundo desenvolvido deixaram-se iludir pela ideia de que a felicidade pessoal se alcançaria através do mero acesso aos bens materiais através do consumo, e fizeram do dinheiro o critério das suas opções de vida.

As consequências nefastas deste paradigma sentem-se, agora, de maneira dramática nas disfuncionalidades da economia e da organização das nossas sociedades, na perda de qualidade das relações sociais, num clima geral de stress e insegurança quanto ao futuro, realidades difíceis de acomodar na vida quotidiana.  

Em particular, as relações entre as pessoas, na família como no trabalho, nos atendimentos dos serviços ou no trânsito e condução automóvel, dão sinais de grande crispação, quando não de manifesta agressividade.

Preocupa-me ver que há quem tenha desaprendido de reparar na pessoa com quem se cruza. Ou, mais ainda, assusta-me constatar que, para alguns, o colega de trabalho é visto como inimigo, um concorrente e, em última análise, como o causador da sua insatisfação pessoal difusa…

Se queremos gerar um mundo mais humano, teremos de arrepiar caminho e é urgente fazê-lo.

Já nos anos 70 do século passado, Ivan Illich chamou a atenção para a necessidade de introduzir na sociedade uma cultura de convivialidade que permeabilizasse a dureza do modelo de produção industrial e recentrasse a organização da economia e das sociedades na dignidade da pessoa humana e nas suas relações.

Hoje, mais do que nunca, importa descobrir o valor e o alcance desta dimensão convivial da existência humana e cultivar o gosto do outro, expressando-o em todas as circunstâncias, não só por palavras, gestos e atitudes, como também dando-lhe concretização no modo de funcionamento das economias e das sociedades.

Uma tal mudança requer motivação e determinação, que toque a consciência individual, pois há que aprender a libertar-nos dos véus do nosso egoísmo e indiferença. São eles que nos impedem de ver o outro com a devida claridade e inteireza, de o respeitar na sua dignidade intrínseca e independentemente de funções sociais que desempenhe, de o considerar como parte de mim mesmo e de o amar como irmão.

Precisamos de descobrir a alegria de um olhar empático e de comunhão com o outro, e exercitá-lo nos nossos quotidianos, de modo a espalhar o óleo lubrificador de que este tempo áspero tanto carece.

O olhar é o espelho da alma, e esta é a porta de entrada da visão que tenho do outro, visão que me habita e move. Por isso é tão importante dar atenção à limpidez e sageza do nosso olhar, afim de construir uma relação com o outro que assente numa mundividência verdadeiramente humana.

Esta é a transformação que, verdadeiramente, está ao nosso alcance: trazer a este mundo de alta complexidade e sujeito a enredada teia de poderes, brotos de mudança no caminho de um mundo mais humano.

Esta é a diferença que dá testemunho da minha fé em Jesus Cristo e na palavra salvadora do Evangelho.

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