Tempo da Quaresma

I Domingo

lucas touro arcabas

Dt 26,4-10;

Sl 90,1-2.10-11.12-13.14-15;

Rm 10,8-13;

Lc 4,1-13

Neste domingo abre-se a sequência de domingos quaresmais do ano C em que é proposta ao crente uma catequese penitencial: as temáticas da , da aliança, da conversão, do perdão e da misericórdia, por  esta ordem, estarão no centro dos cinco domingos quaresmais.
O tema da atravessa as leituras de hoje. A 1.ª leitura apresenta uma profissão de fé com que Israel faz memória das maravilhas operadas por Deus em seu favor: Israel diz a fé narrando uma história, não com afirmações teológicas abstractas. A 2.ª leitura contém a profissão de fé cristã: profissão de fé que não é um momento puramente verbal e intelectual, mas envolve “boca” e “coração” (cf. Rm 10,8-10), interioridade e exterioridade, a pessoa inteira na sua corporeidade. O evangelho apresenta a fé de Jesus como luta contra o tentador e princípio de decisão e de escolha. A fé não o é se não for tentada: isto o que diz o texto das tentações de Jesus.
As “três” tentações de Jesus, que Lucas deslocou para três locais diferentes que representam sinteticamente o caminho de Jesus no terceiro evangelho (no deserto; no alto – para Jerusalém, “sobe-se” – e em Jerusalém), indicam o carácter repetido e intenso como se oferecia a Jesus a possibilidade de viver a sua vocação sem ser na obediência a Deus e à sua Palavra (e isto é a tentação).
A força da tentação manifesta-se proporcionalmente à essencialidade em que Jesus se situa. O jejum, a solidão e o silêncio do deserto, assim como o recurso exclusivo à palavra da Escritura sem nenhuma palavra própria, são elementos da essencialidade e da radicalidade procuradas por Jesus. Ou do seu habitar o seu próprio coração e do seu fazer reinar apenas Deus no seu coração. Jesus vence as tentações protegendo a sua humanidade sem descer ao sub-humano e sem se alçar ao sobre-humano. E assim protege também a imagem revelada de Deus sem lhe perverter ou deturpar o rosto.
A primeira tentação mostra Jesus que não absolutiza a sua necessidade e não procura satisfazê-la de imediato. Jesus não se evade da condição de criatura do homem, para quem o pão é extraído da terra com a fadiga e o suor do trabalho e não recorrendo a expedientes mágicos ou técnicos de manipulação da realidade.
Na segunda tentação, Jesus não se subtrai aos limites espácio-temporais da condição humana: Lucas afirma que o diabo lhe mostrou – num impressionante encurtamento temporal e numa desmesurada dilatação espacial que exprime bem a vertigem e o delírio da omnipotência – “num instante” “todos os reinos da terra”. Jesus não cede ao fascínio do todo, mas permanece habitante do limite, protege a unicidade de Deus e a distância dele: “Só perante o Senhor teu Deus te prostrarás” (Lc 4,8; cf. Dt 6,13).
Na terceira tentação, Jesus não cede ao fascínio do prodigioso, do espectacular e não se subtrai aos limites da sua corporeidade. Jesus não impõe a sua messianidade com gestos extraordinários que constrangessem a dar-lhe a adesão. Jesus protege a limitação e a mortalidade da condição humana.
Ou seja, a tentação é vencida protegendo a humanidade, que é aquilo em que consiste a imagem e semelhança da criatura com o Criador, e é vencida com a obediência a Deus na humanidade concreta, frágil e mortal. Jesus, por honestidade em relação a Deus, recusa-se a pôr Deus onde facilmente o homem o colocaria, isto é, no miraculoso, no prodigioso, no espectacular, no tranquilizador, no sagrado, naquilo que se impõe. Mas, a seguir, os espaços para Deus restringem-se e chega um momento em que a imagem de Deus é envolvida pelas trevas, pelo silêncio e pela não-evidência. Sobre a cruz, na fraqueza, ou melhor, na impotência de quem está crucificado, na escuridão que envolve a terra e no silêncio de Deus, Jesus narra a partir de agora a presença de Deus na sua pessoa nua: ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1,15). Sobre a cruz Jesus revela o rosto paradoxal de Deus e abre a esperança da salvação a todas as criaturas, a todos os homens. Aí está a definitiva vitória contra as tentações.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas