Páscoa

II Domingo de Páscoa

lucas touro arcabas

Act 5,12-16;

Sl 117,2-4.22-24.25-27a;

Ap 1,9-11a.12-13.17-19;

Jo 20,19-31

O Ressuscitado manifesta a sua presença no corpo comunitário curando com as chagas das suas feridas de crucificado a incredulidade de Tomé (evangelho); mostra o seu poder nas curas que os apóstolos realizam no corpo de muitos doentes (1.ª leitura); revela a sua presença vivificante no coração da comunidade cristã (cf. Ap 1,13) num dia preciso, “o dia do Senhor” (Ap 1,10), o domingo, memorial da ressurreição no desenrolar do tempo e da história (2.ª leitura).
O evangelho é o livro que é sacramento do poder de ressurreição do Senhor enquanto recolha de “sinais escritos” (Jo 20,30), capazes de despertar a fé que conduz à salvação (evangelho); João, o autor do Apocalipse (Ap 1,4.9), recebe ordem de escrever as visões e profecias que se tornarão palavra endereçada a cada comunidade cristã e que, lida na assembleia, narrará o Senhor da história e fará reinar as energias pascais guiando cada comunidade no caminho da conversão (2.ª leitura).
Se, avançando para a paixão, Jesus tinha dito aos seus discípulos: “Amai-vos uns aos outros: por isso todos saberão que sois meus discípulos” (Jo 13,35), agora, ressucitado da morte, Cristo, de facto, diz: “Perdoai os pecados: por isso todos saberão que sois meus discípulos, habitados pelo meu Espírito” (cf. Jo 20,22-23). A remissão dos pecados aparece como o sinal distintivo da Igreja que testemunha o Ressuscitado, de tal modo que deve transparecer e manifestar-se na Eucaristia (cf. Mt 26,28: “Este é o meu sangue, derramado para perdão dos pecados”), no exercício da autoridade (cf. Mt 16,19: a autoridade de dissolver ou ligar), na missão (cf. Jo 20,23).
No nosso texto a remissão dos pecados não aparece como um poder jurídico, mas como carisma, dom, graça, tanto que a sua condição é receber-se o Espírito, é o acolhimento do dom dos dons. O corpo trespassado e glorioso de Jesus narra sinteticamente a sua vida inteira como vida de amor, é  corpo “narrante” que manifesta e fala daquilo que viveu, que o fez reviver e que o faz viver: o agape. O corpo ressuscitado de Jesus fala de um amor vivido até ao fim e de um Espírito que acompanhou esse amor até tornar as feridas, as injúrias e a morte sofridas ocasiões ulteriores de dom, de amor. O amor está na origem da ressurreição. O corpo ressuscitado de Jesus é corpo narrante à vista do qual se vê mais e mais: vê-se o amor do Pai, vê-se o amor com que o Filho viveu a traição de Judas e a negação de Pedro, assim como a violência dos soldados e a hostilidade das autoridades religiosas. O corpo ressuscitado de Jesus é o corpo que narra a capacidade de fazer do mal sofrido um dom. E é corpo que pede à Igreja que se torne ela própria corpo narrante, corpo que narra a misericórdia de Deus e a sua capacidade de perdão e de remissão dos pecados.
A manifestação do Ressuscitado suscita a alegria dos discípulos (cf. Jo 20,21), realizando assim a promessa de Jesus: “Vós sentis-vos agora tristes, mas eu hei-de ver-vos de novo e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16,22). A alegria pascal, a alegria cristã, a alegria que nada nem ninguém pode tirar, não elimina as feridas e os sofrimentos vividos, mas, enxertando-os pela fé em Cristo, pode fazer deles – evangelicamente – alguma coisa mais: não um motivo de desforra ou de vingança, mas de perdão e de amor, e assim realiza a “justiça superior” (Mt 5,20).
A fé no Ressuscitado nasce em Tomé passando através do reconhecimento das feridas que Cristo tem no seu corpo. E através de tomar consciência do facto de que ele próprio não é alheio a esse trespassar: Jesus pede-lhe que toque as suas feridas! A fé pascal não pode nascer nos cristãos senão passando por tomarem consciência das feridas que provocam no corpo de Cristo que é a Igreja, que infligem aos seus membros, os irmãos e irmãs na fé. Só esta fé pascal é autêntica, porque acompanhada do arrependimento e da conversão do próprio crente.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas