Páscoa

V Domingo de Páscoa

lucas touro arcabas

Act 14,21-27;

Sl 144,8-9.10-11.12-13ab;

Ap 21,1-5a;

Jo 13,31-33a.34-35

Excerto do discurso de despedida de Jesus, a perícope litúrgica apresenta a herança, o dom e a tarefa que Jesus deixa aos seus discípulos: o amor, o agape. “Amai-vos como eu vos amei.” Expresso sob a forma de ordem, este amor tem forma pascal, pede ao discípulo que saia de si, para acolher em si a forma de Cristo, e “forma e figura de Cristo em nós é o amor” (Cirilo de Alexandria). Viver o amor como Jesus o viveu significa participar nas energias do Ressuscitado, passar da morte à vida, significa confessar nas relações quotidianas a fé pascal (evangelho). Fruto da ressurreição é também a actividade apostólica intensa desenvolvida por Paulo e Barnabé: pregações, viagens, serviços às comunidades dos irmãos, organização da vida das próprias comunidades, e contínuos perigos assumidos como momentos integrantes da vivência da fé: de facto, “é necessário atravessar-se muitas tribulações para entrar no Reino de Deus” (Act 14,22: 1.ª leitura). A perspectiva pascal também está presente na visão do Apocalipse que mostra o cumprimento escatológico e universal da aliança (“Eis a morada de Deus entre os homens! Ele habitará com eles e eles serão o seu povo”: O cumprimento da Páscoa é o fim de luto, angústia, lamentos, pecado e morte (2.ª leitura).
Se a perspectiva da morte conduz a concentrar-se naquilo que é essencial e irrenunciável, as palavras que Jesus pronuncia sobre o amor antes da sua paixão e morte, indicam a via da essencialidade no amor. Jerónimo afirma que, “se este fosse mesmo o único mandamento do Senhor, bastaria”.
Nós decerto perguntamo-nos o que restará de nós para os outros depois da nossa morte e o que nos deixaram os outros com a sua morte. Jesus com esta palavra sobre o amor quer que dele fique o amor entre os discípulos: “Como eu vos amei, assim também amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Nada de idílico ou romântico nesta ordem, antes, algo de dramático. Trata-se de converter o nosso olhar sobre o outro, tornando a limitação que ele representa para nós uma ocasião de amor, de acolhimento e não de rejeição, de reconhecimento e não de negação, de hospitalidade e não de hostilidade. A presença do Ressuscitado acontecerá assim no espaço relacional intracomunitário: “uns aos outros”. Escreve Inácio de Antioquia: “Na vossa harmonia e no vosso amor concorde canta-se Jesus Cristo.” Cristo faz-se presente e vivo no amor que habita as relações na comunidade cristã. E ali canta-se Jesus Cristo, ou seja, celebra-se existencialmente a sua presença de Ressuscitado.
O evangelho mostra em estreita relação a saída de Judas do espaço comunitário e a glorificação de Jesus (cf. v. 31). O gesto de traição, que podia simplesmente ser execrado e censurado, é visto por Jesus no contexto da sua história com o Pai e, portanto, como sinal da sua glorificação. Mas é claro que a hora da sua glorificação não é suscitada por Judas com o seu gesto, mas pelo amor de Jesus que amou os seus “até ao fim” (Jo, 13,1). É a tremenda objectividade do amor de Jesus que provoca os acontecimentos e sob a sua luz se compreendem os gestos de Judas que trai e de Pedro que renega, assim como que permaneça no amor o discípulo amado. As palavras de Jesus (cf. vv. 31-32), uma espécie de cântico de alegria, atestam a boa consciência de Jesus e que ele permaneceu sempre no amor, e amou Judas mesmo quando este já tinha em mente a traição. A morte representada pelo ódio e pela vingança, pelo despeito e pela exclusão, já foi vencida por Jesus ao amar o irmão que se tornou inimigo e enquanto ele é inimigo. A ressurreição será expressão da força vivificante do amor.
E o amor que une entre si os cristãos será a grande força evangelizadora, será a narração entre os homens da presença viva e operante do Ressuscitado: “Por isto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (v. 35).

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas