Festa

Ascensão do Senhor

lucas touro arcabas

Act 1,1-11;

Sl 46,2-3.6-7.8-9;

Hb 9,24-28;10,19-23;

Lc 24,46-53

Segundo o evangelho, a ascensão de Cristo é acompanhada de uma bênção (Lc 24,51: “Enquanto Jesus abençoava os discípulos, separou-se deles e foi elevado ao céu.”) e, segundo a 1.ª leitura, de uma promessa (Act 1,11b: “Jesus virá um dia do mesmo modo que o vistes partir para o céu”): de facto, com a ascensão, o Senhor faz dom à humanidade da sua presença de uma forma nova (bênção) e não abandona os seus, mas virá novamente ao seu encontro (promessa). A promessa e a bênção da ascensão cometem a Igreja na história a testemunhar a presença do Ressuscitado e a esperar a sua vinda gloriosa. Testemunho e espera são os reflexos eclesiais e espirituais do acontecimento da ascensão como promessa e bênção.
A narração da ascensão nos Actos dos Apóstolos estabelece uma continuidade entre a vinda gloriosa do Senhor e o seu caminhar histórico (o verbo usado para designar a partida de Jesus para o céu é o mesmo que indica o caminho que ele realizou ao longo das aldeias da Galileia e da Judeia). O Ascendido ao céu é O Que Virá e é aquele que passou entre os homens fazendo o bem e curando: “Homens da Galileia, porque estais a olhar o céu? Esse Jesus que subiu de entre vós para o céu virá um dia do mesmo modo que o vistes partir para o céu” (Act 1,11). Vinda escatológica e caminho quotidiano de Jesus estão em estreita continuidade: para conhecer, confessar e testemunhar O Que Virá não é preciso olhar o céu, mas recordar os passos dados por Jesus na terra. A humanidade de Jesus atestada pelos Evangelhos é o magistério que indica aos cristãos o caminho a percorrer para testemunhar aquele que, subido ao céu, já não está fisicamente presente entre os seus e virá na glória.
A ascensão é apresentada por Lucas como um afastamento, uma separação de Jesus dos seus. Mas trata-se de um afastamento que antecipa uma forma de presença outra de Jesus junto dos seus. Presença de que os discípulos são constituídos testemunhas. E o testemunho é criado pelas Escrituras e pelo Espírito Santo: para os discípulos trata-se de testemunhar o “está escrito” (cf. Lc 24,46-48) e de acolher o dom do Espírito (cf. Lc 24,49). Eis a Igreja como memória de Cristo entre os homens graças às Escrituras e ao Espírito. Se, etimologicamente, o termo mártys (testemunha) remete para uma raiz que entre os seus significados inclui o de recordar, este recordar não fica, porém, esgotado numa dimensão psicológica, mas tem também uma dimensão teologal e espiritual. É um recordar que se torna presença, actualidade, história, e isto na figura dos santos, os quais dão um rosto a Cristo no tempo da sua ausência física, até ao seu regresso. E, enquanto testemunho de Cristo, é testemunho do passado (aquele que veio em carne) e do futuro (aquele que virá na glória). É, portanto, profecia. Testemunhar é dar um rosto Àquele que não está visível. O testemunho não é, portanto, quantitativamente mensurável, mas situa-se no plano inefável do ser: o rosto é o único ícone do divino.
A ascensão fala de um afastamento que se abre sobre uma nova comunhão: o fim de tudo torna-se o começo de uma história nova. A presença subtraída torna-se presença dada através da responsabilidade do crente de dar testemunho. Aquilo que em termos teológicos e espirituais é expresso pelo evangelho dizendo que a ascensão é uma bênção, em termos antropológicos pode ser traduzido (ainda que imperfeitamente e apenas por analogia) como elaboração do luto: aquele que partiu está verdadeiramente morto, já não existe, já não lhe toco (“não me retenhas”: Jo 20,17) e já não o vejo (“Jesus desapareceu da vista deles”: Lc 24,31), mas a sua presença vive em mim, está interiorizada. Pelo contrário, a presença de Cristo vive na Igreja e a Eucaristia, lugar em que passa e floresce o Espírito, é o memorial em que os nossos sentidos são novamente postos perante a sua presença através dos sinais do pão e do vinho eucarísticos, da Palavra anunciada nas Escrituras, dos rostos dos irmãos e das irmãs reunidos na assembleia. É o lugar que renova o testemunho dos cristãos.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas