Festa

Santíssima Trindade

lucas touro arcabas

Pr 8,22-31;

Sl 8,4-5.6-7.8-9;

Rm 5,1-5;

Jo 16,12-15

A 1.ª leitura apresenta aquela figura da Sabedoria que representa Deus no seu comunicar-se aos homens, no seu entrar em relação com eles, e esta comunicação, que o Antigo Testamento diz ter acontecido essencialmente através da palavra (e, portanto, também através do sopro que acompanha a palavra), segundo o Novo Testamento aconteceu plenamente em Jesus Cristo, a Palavra feita carne (cf. Jo 1,14), e no Espírito Santo, o Sopro divino. Em particular, a comunicação de Deus aos homens no Filho e no Espírito manifesta-se como comunicação do dom do amor (2.ª leitura). O Espírito completa no crente a obra de Cristo, interiorizando nele a presença do Filho e guiando-o para que assuma e leve consigo a Palavra de Deus que faz renascer como filhos de Deus (evangelho).
Os textos bíblicos utilizados pela liturgia para celebrar o mistério da Trindade divina sublinham o aspecto da comunicação da vida divina aos homens. É assim revelado que o Deus que se comunica à humanidade no Espírito e no Filho Jesus Cristo é o Deus que é comunhão e comunicação em si próprio. A Trindade, que exprime o “como” da unidade de Deus e a exprime em termos de comunhão interpessoal, é o fundamento de só podermos falar de Deus em termos de comunhão. Se Deus é comunhão no seu próprio ser, se o Espírito é Espírito de comunhão e se Cristo é “pessoa comunitária” inseparável do seu corpo que é a Igreja, então a comunhão é a própria natureza da Igreja: a Igreja de Deus ou é comunhão ou não é [Igreja].
Da Trindade divina deriva também a visão da pessoa humana como relacional: na Trindade cada pessoa é para o outro e a pessoa humana realiza-se na relação com o outro. E deriva a concepção da intangibilidade e inalienabilidade da pessoa humana: assim como os nomes das três pessoas trinitárias não se confundem nem são permutáveis entre si, também a pessoa humana é um valor em si, e um fim e não um meio, é uma grandeza que não pode ser sacrificada a interesses sociais ou públicos ou de qualquer outro tipo.
A promessa do Espírito é formulada por Jesus a partir do seu olhar que vê a fraqueza dos discípulos, a sua incapacidade de carregar o peso das palavras que ele ainda teria para dizer (cf. Jo 16,12). A compaixão do Filho está na origem da promessa do Espírito, o qual à sua volta é sinal da compaixão divina. O texto sugere que no Espírito Santo a vulnerabilidade de Deus vai ao encontro da fraqueza humana. E a vinda do Espírito torna-se o caminho do homem: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará para a verdade completa (Jo 16,13). A vinda do Espírito orienta o caminho do homem para Cristo, e para o Cristo que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo, 14,6). Aquele que é a verdade é também o caminho: a comunicação da vida divina ao homem graças ao Espírito torna-se assim percurso quotidiano a retomar sempre, escutando e interiorizando a Palavra de Deus que conforma o crente com o Filho.
O Espírito que introduz na vida divina é sinal de uma ausência (“Se eu não for, não virá a vós o Consolador”: Jo 16,7) e expressão de um silêncio, de um não-dito (cf. Jo 16,12): a vida espiritual do crente torna-se, portanto, fazer habitar no crente a presença e a Palavra do Senhor graças ao acolhimento do Espírito. A comunicação de Deus com o homem acontece também graças à retirada de Cristo e ao seu silêncio. E também a comunicação intra-humana acontece apenas com a palavra e a presença de um ao outro, mas também com o silêncio e a discrição.
O Espírito, comunicando (ou “anunciando”, como traduz a bíblia CEI: vv. 13.14.15) ao homem o mistério de Deus, glorifica o Filho. E o crente glorifica o Senhor acolhendo a comunicação divina e fazendo-se morada da sua presença. E a glorificação manifesta-se como amor, amor de Deus e amor do crente “Quem me ama, observará a minha palavra e o meu Pai o amará e nós viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23).

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas