Tempo Comum

IX Domingo

lucas touro arcabas

1Rs 8,41-43;

Sl 116, 12;

Gl 1,1-2.6-10;

Lc 7,1-10

Se, na 1.ª leitura, Salomão intercede junto de Deus para que também a prece dos estrangeiros seja por ele escutada e atendida, no evangelho, o centurião, um não judeu, intercede junto de Jesus através dos filhos de Israel para que o seu servo moribundo se possa curar. Se Jesus reconhece a grande fé do estrangeiro, Salomão atesta a bondade da oração dos estrangeiros.
A figura do estrangeiro, com a sua valência simbólica, está no centro tanto da 1.ª leitura como do evangelho, e isto oferece a oportunidade de uma reflexão evangélica sobre o estrangeiro que habita entre nós. O estrangeiro é aquele que põe em causa a minha identidade porque a sua presença me torna estrangeiro: perante ele, eu sou estrangeiro para ele como ele é estrangeiro para mim. A minha responsabilidade para com ele é a mesma que tenho em relação a mim. “O estrangeiro habita em nós: é o rosto escondido da nossa identidade, o espaço que destroça a nossa morada, o tempo em que se afundam a compreensão e a simpatia. Reconhecendo-o em nós, poupamo-nos a detestá-lo a ele. O estrangeiro está em nós próprios” (Júlia Kristeva). Também no plano bíblico-teológico a figura do estrangeiro é muito significativa e rica: o Deus bíblico revela-se a um povo de nómadas; dá-se a conhecer como o salvador deles enquanto estrangeiros e escravos no Egipto; com a encarnação, Deus faz-se estrangeiro, faz-se homem, torna-se outro para vir ao encontro do homem; o estrangeiro aparece como figura de revelação.
“Nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé” (v. 9). A fé deste homem alia-se a uma grande capacidade de amar: ele amava o povo de Israel (v. 5), era muito afeiçoado ao seu servo (v. 2), tinha diversos amigos (v. 6). O mistério da fé é sempre também mistério do amor. Uma grande capacidade afectiva e relacional constitui o fundo da sua fé. Fé que não tem uma acepção dogmática, mas existencial: trata-se de confiança e entrega. Aquele que humanamente muito ama (o centurião) reconhece aquele que narra o poder do Deus que é amor (Jesus). A capacidade de amor do centurião reconhece a potencialidade de amor de Jesus e confia-se-lhe.
O centurião é, nas palavras dos próprios anciãos de Israel, alguém que ama o povo de Israel. Ele aproxima-se de Jesus através do amor por Israel. Os cristãos são chamados, através do seu amor por Jesus, a aproximar-se de Israel, a amar Israel, o povo da aliança e das bênçãos que na história é “o monumento natural e histórico do amor e da fidelidade de Deus” (Karl Barth). Jesus não pode ser separado do seu povo, que é a sua carne, o seu corpo: “A carne de que a Palavra se revestiu não é uma carne qualquer, em sentido genérico e abstracto, trata-se da carne judia. Toda a doutrina da encarnação e da reconciliação se tornaria abstracta, banal e sem significado na medida em que se considerasse este facto apenas um fenómeno secundário e fortuito” (Karl Barth).
O amor do centurião por Israel manifestou-se concretamente na construção de uma sinagoga. Dar espaço e consentir a construção do edifício de culto a quem professa uma outra religião é sinal de respeito, liberdade, consciência dos direitos religiosos do outro, é pôr em prática o evangélico “faz ao outro aquilo que gostarias que te fizessem a ti”. Honra verdadeiramente a sua própria fé quem honra e respeita a do outro.
A confiança do centurião, louvada por Jesus, é confiança no poder da sua palavra. E encontra uma semelhança com a eficácia das ordens a que ele próprio obedece e que dá. A partir do seu mister de militar, ele descobre uma analogia entre si e Jesus, entre a eficácia das suas ordens e a das palavras de Jesus. Se ele está submetido a uma autoridade superior, Jesus está submetido ao Pai e, assim como são obedecidas as suas ordens, por maioria de razão serão eficazes as ordens de Jesus. Jesus diz aos discípulos “Ide” e eles partem em missão (cf. Mt 28,19; Mc 16.15.20); Jesus diz: “Vinde comigo” e alguns homens começam a segui-lo (Mc 1,17-18); Jesus diz “Fazei isto em memória de mim” e os discípulos repetem através dos tempos o gesto eucarístico (Lc 22,19).

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas