Tempo Comum

XII Domingo

lucas touro arcabas

Zc 12,10-11;

Sl 62,2.3-4.5-6.8-9;

Gl 3,26-29;

Lc 9,18-24

O caminho doloroso do Messias, que culminará em ele ser morto pelas autoridades do seu povo (evangelho), é profetizado pelo destino doloroso e trágico do pastor justo trespassado de que fala a 1.ª leitura.
Frequentemente, os comentários às palavras iniciais deste trecho do evangelho (v. 18) repetem que nos momentos decisivos da sua vida Jesus reza. Esta afirmação inverte os termos da questão: não é que nos momentos decisivos da sua vida Jesus reze, mas é a oração de Jesus que torna decisivos os momentos do seu viver. Jesus passa a noite a rezar e de manhã escolhe os Doze (cf. Lc 6,13). Jesus habita o tempo também com a oração e isto habilita-o a realizar escolhas guiadas pelo discernimento da vontade de Deus. A oração coloca o hoje do nosso tempo diante de Deus e ajuda a vivê-lo na obediência a Ele. É rezando que discernimos o tempo e o resgatamos (cf. Ef 5,16), tornando-o uma ocasião de culto autêntico, ou seja, de amor a Deus e aos irmãos.
A oração de Jesus é aqui seguida da pergunta, dirigida aos discípulos, sobre a sua identidade. Na oração Jesus recebe a sua identidade de Filho do Pai (Lc 3,22: “Tu és o meu Filho”), mas essa identidade, fundada na relação com o Pai, é chamada a ser reconhecida e confessada pelos homens. Ele, portanto, interpela os discípulos e, através deles, toda a gente. A qualidade de uma pessoa é confiada também ao discernimento das pessoas que a encontram, a vêem e a escutam. Na oração dirigida a Deus – Jesus recebe a Palavra divina e obedece-lhe na sua vida; na pergunta dirigida aos homens – ele solicita uma resposta, suscita uma palavra e avalia-a, aprecia-a e eventualmente corrige-a e orienta-a.
Entre as ordens de Jesus aos discípulos não se conta só a de irem e anunciarem (cf. Mt 28,19; Mc 16,15), de pregarem dos terraços (cf. Mt 10,27; Lc 12,3), mas também a de ficarem em silêncio, de não anunciarem, de não dizerem nada a ninguém (v. 21). A urgência da evangelização não pode fazer esquecer a necessária disciplina do arcano, a lenta e progressiva preparação, a iniciação no mistério, que requer tempo e paciência. E não pode sequer fazer esquecer a necessidade do silêncio para que a palavra pregada e anunciada seja, graças à reflexão que a preparou, uma palavra credível e de autoridade.
Lucas sublinha a dimensão de quotidianidade da assumpção da cruz para seguir Jesus. O gesto de tomar a cruz e levá-la refere-se, originalmente, à sentença que impõe ao condenado à morte que agarre e carregue o instrumento da sua própria execução. A extensão desse gesto ao “dia após dia” (v. 23), se retira alguma coisa à dimensão trágica ínsita na literalidade do gesto, acrescenta, no plano simbólico, o aspecto da custosa perseverança e da difícil e penosa fidelidade. Perseverança é a partir daqui, para os cristãos, um nome da cruz.
Tomar a cruz todos os dias significa também que a escolha de seguir Cristo, selada de uma vez por todas pelo baptismo, é existencialmente refeita cada dia. A ideia ingénua e ilusória de que a uma escolha, se “justa”, não deverão surgir dificuldades e obstáculos, mas que tudo deverá “seguir-se em conformidade”, deve ser substituída pela ideia de que nada existe de mágico nas escolhas e de que nenhuma escolha, ainda que definitiva, exime de escolher de novo todos os dias para poder recomeçar e prosseguir o caminho. Em particular, é preciso renovar os motivos da escolha à medida que se cresce e se evolui como pessoa, evitando o mito desresponsabilizador da escolha “justa” como escolha que dispensa do esforço de discernir, reflectir e arriscar.
A relação entre a perda da vida e a sua salvação é transfiguração, no plano da fé e do seguimento de Cristo, da dinâmica antropológica de “viver é perder” sobre a qual se enxerta. Cada ligação para nós vital é tornada possível por uma necessária, preliminar, separação: da separação inicial do ventre materno, passando pelas separações da família de origem para construir a sua própria família, até à separação da vida que, para o crente, é porta de acesso à vida com Deus para sempre.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas