15 Agosto,

Assunção de Nossa Senhora

lucas touro arcabas

Ap 11,19a.12,1-6a.10ab;

Sl 44,10.11.12;

1Cor 15,20-27a;

Lc 1,39-56

Com esta celebração a Igreja convida a contemplar os frutos de vida da ressurreição de Jesus Cristo (2.ª leitura) em Maria, mas também na Igreja e na humanidade inteira de quem Maria, “a mulher” (Ap 12,1; 1.ª leitura), é figura representativa. Os frutos da ressurreição parecem operantes também no excerto do evangelho escolhido para esta festa, ou seja, no encontro entre Maria e Isabel, as duas mulheres impossibilitadas de gerar, porque, respectivamente, virgem e estéril, mas que concebem e dão à luz anunciando nos seus corpos a capacidade de Deus de criar vida onde havia morte. E o canto de Maria (o Magnificat) celebra a misericódia divina como fonte de vida e de salvação (evangelho).
O encontro das duas mulheres que viram visitado e colmatado o seu vazio torna-se pentecostes: ao ouvir a saudação de Maria, “Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1,44). É-se portador do Espírito quando se é pobre em espírito, como são as duas mulheres.
Nesta festa em que se celebra o acontecimento com que Deus abriu caminho a Maria tornando-a “terra do céu”, Maria aparece como aquela que abriu caminho a Deus no seu corpo, na sua carne, na sua vida. Apresentada como arca da aliança, como lugar de encontro entre Deus e o homem, Maria exprime o facto de que o cumprimento da aliança implica abrir caminho a Deus, dar espaço a Deus. Maria é morada de Deus, templo da sua presença.
O Magnificat sugere que a grande obra pedida ao crente (e Maria aparece como a primeira crente) é crer na misericórdia de Deus e deixá-la operar em si. Partindo do Magnificat, a vida de Maria surge como um cântico à misericórdia divina. E o Magnificat é também uma síntese da história da misericórdia divina em Israel, de Abraão em diante (cf. Lc 1,54-55), na totalidade do tempo designada como sucessão de gerações: “de geração em geração a sua misericórdia se estende sobre aqueles que o temem” (Lc 1,50). A misericórdia de Deus cria uma continuidade na descontinuidade das gerações, portanto, do tempo. Aquilo que mantém unido o tempo é a misericórdia divina. Certamente que esta continuidade é dilacerada pela morte: sucederem-se as gerações implica a rotura irremediável constituída pela morte, portanto, implica deixar espaço aos outros que virão depois de nós. A misericórdia de Deus é poder de vida através da sucessão das mortes e também no coração da própria morte, portanto, é aquilo que está na base da ressurreição.
No centro do cântico de Maria está a relação. Relação de Deus com ela, mas também com todo o Israel. O Magnificat é celebração da aliança. E é também anúncio de um louvor que será dirigido a Maria no futuro: “Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).
Na atenção equilibrada, fundamentada na Bíblia, prestada a Maria, como  mulher e também como figura representativa colectiva que remete para a humanidade, para a Igreja, para a criação, está a possibilidade de aprofundar o alcance humano da fé cristã e de preservá-la de declinações demasiado estreitas e dogmáticas e, por outro lado, de mantê-la distante das quedas devocionais e pietistas associadas a uma exaltação sobre-humana de Maria.
Maria profere o seu cântico no Espírito Santo que está sobre ela e, portanto, pode-se aplicar-lhe as palavras ditas sobre Zacarias: “Zacarias ficou cheio do Espírito Santo e proferizou dizendo…”, e seguem-se as palavras do Benedictus (cf. Lc 1,67-79). Maria, com o Magnificat, pratica uma obra de profecia. Acção profética é a celebração da Palavra de Deus reconhecida presente e operante na história e na vida. Ao mesmo tempo, rezando o Magnificat, Maria pratica uma obra de teologia, traçando uma síntese da história da salvação desde a promessa ao seu cumprimento, de Abraão, o pai dos crentes (cf. Lc 1,55), a Maria, a mãe dos crentes.
Maria, mulher de fé e de oração, reconhece que aquilo que Deus fez por ela só aconteceu graças ao seu inserimento no povo da aliança. E assim, com humildade, mas também com audácia, Maria coloca-se entre os protagonistas da história da salvação e estende um fio que liga a pequena e humilde serva do seu Senhor (cf. Lc 1,48) a Israel, servo do Senhor (cf. Lc 1,54).

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas