Tempo Comum

XXII Domingo

lucas touro arcabas

Sir 3,17-18.20.28-29;

Sl 67,4-5ac.6-7ab.10-11;

Heb 12,18-19.22-24a;

Lc 14,1.7-14

As leituras de hoje contêm uma mensagem sobre a humildade: humildade como atitude humana agradável a Deus e que torna amável aquele que a vive (1.ª leitura); humildade como atitude que reproduz o modo de escolher e de viver que foi o de Cristo Jesus (evangelho).
Com efeito, o texto evangélico fala antes de mais de Jesus. Isso tem um alcance cristológico: Cristo é aquele que sendo Deus se rebaixou, fez-se homem, assumiu a forma de escravo até partilhar a condição mortal do homem, de facto, até morrer da morte de cruz. Jesus é aquele que escolheu o último lugar que ninguém poderá jamais tirar-lhe. E é aquele que, tendo-se humilhado, foi exaltado pelo Pai (cf. Fl 2,5-11). Foi Jesus que na sua vida concedeu um privilégio a pobres e a pequenos, a doentes e fracos, a coxos, aleijados e cegos, narrando o amor e a vizinhança de Deus antes de mais àqueles que eram descartados pelos outros. Foi Jesus que viveu a dimensão de unilateralidade do amor, amando sem esperar ser amado de volta, sem procurar reciprocidade.
O texto [do evangelho] alerta para o protagonismo e o exibicionismo de quem procura os primeiros lugares nas festas, arriscando-se a ser “recambiado” para o último lugar pelo dono da casa se chegar uma visita que ele considere mais respeitável. Obviamente, a humildade não se opõe apenas à ânsia de aparecer de quem gosta de dar nas vistas, de quem “gosta dos lugares de honra nas festas, dos primeiros lugares na sinagoga” (Mt 23,6), de quem usa as igrejas e o religioso para se exibir, para “se fazer notar”, mas também à atitude de falsa modéstia de quem se coloca atrás, no último lugar, mas alimentando no íntimo uma esperança de ser mandado para a frente. Humildade é ficar no lugar que o Senhor lhe atribuiu. Humildade é ser fiel na tarefa que o Senhor confiou e no lugar em que se foi colocado.
Humildade é também a sabedoria de quem tem uma justa avaliação de si próprio, de quem não ambiciona coisas demasiado elevadas, de quem aceita a realidade e não a evita nem por cima nem por baixo. Escreve Paulo: “Não vos considereis mais do que é devido considerar-se, mas senti-vos de modo a ter de vós próprios uma justa avaliação, cada um segundo a medida de fé que Deus lhe deu” (Rm 12,3).  
Mesmo falando de uma recepção, de um banquete, Jesus consegue falar do agir surpreendente de Deus: no banquete do Reino são os pobres que ficam com os lugares privilegiados, são os últimos que são os primeiros (cf. Lc 14,11). Para nós homens, o que há de mais sensato e habitual do que convidar para nossa casa as pessoas amigas, aquelas a quem estamos ligados por laços de amizade e amor, aquelas que já nos convidaram e voltarão a convidar-nos? Mas Jesus está a obedecer à lógica “estranha”, “louca”, “rara” de Deus e do Reino. O discurso de Jesus é suscitado por uma “lógica ilógica”, se considerada a partir do nosso bom senso: a reciprocidade que nós normalmente procuramos, Jesus afirma que é estranha ao agir de Deus. E revela que, para o homem, esta lógica torna-se fonte de felicidade: “serás feliz porque não têm como retribuir-te” (Lc 14,14). A felicidade consiste exactamente na participação na sorte de Jesus que amou unilateralmente os homens no seu pecado e na sua hostilidade (cf. Rm 5,6 ss.), que se inclinou também perante Judas, que estava na disposição de o trair, para lhe lavar os pés (cf. Jo 13,1-30), que não procurou recompensas terrenas e não pretendeu ser amado de volta em troca do seu amor. Jesus diz: “Como eu vos amei, amai-vos uns aos outros” (Jo 15,12) e não diz: Como eu vos amei amai-me vós também”.
A felicidade ínsita neste amor é a total gratuidade, a alegria de amar em pura perda, na consciência de que o amor basta ao amor, que amar é recompensa para quem ama. É a felicidade de quem está livre do medo de perder alguma coisa amando; é a felicidade de quem espera e aguarda como única recompensa a comunhão escatológica com Deus no Reino (cf. Lc 14,14b); é a felicidade de quem encontra no dom a sua alegria; é a felicidade de quem não age com vista a uma troca, mas dando-se inteiramente naquilo que vive e que realiza.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas