Tempo Comum

XXIX Domingo

lucas touro arcabas

Ex 17,8-13;

Sl 120,1-2.3-4.5-6.7-8;

2Tm 3,14-4,2;

Lc 18,1-8

A oração como luta e intercessão (1.ª leitura); a oração insistente e que não desiste (evangelho): este o tema que une 1.ª leitura e evangelho. A oração não como obra dos fortes, mas dos fracos: Moisés é ajudado a manter os dois braços erguidos em oração; no evangelho é uma pobre viúva que se faz sujeito de uma oração insistente. Fracos tornados fortes pela e que perseveram na oração. A perseverança como elemento da verdade da oração e a oração como autenticação da fé são outros elementos que reforçam a catequese sobre a oração contida nos textos bíblicos deste domingo.
A imagem de Moisés com as mãos erguidas para o alto no esforço de intercessão, ajudado por dois homens que seguram os seus braços que vão ficando cada vez mais pesados com o passar do tempo, é uma bela imagem do custo da oração. A oração é um esforço, é opus, labor, e, como todo o labor, é custosa,  para o corpo como para o espírito. Mas aquela imagem indica também um aspecto da dimensão comunitária da oração.  A comunidade cristã não é apenas um lugar em que se é chamado a rezar uns pelos outros, a interceder, mas também a pôr-se ao serviço da oração do outro. Apoiar-se e encorajar-se na fé e na oração é tarefa requerida aos crentes na comunidade cristã.
Um aspecto desta dificudade da oração é que se torne quotidiana, que seja perseverante, que não se extinga. Aspecto expresso na parábola do evangelho (cf. Lc 18,1). A preocupação de insistir na necessidade de rezar sempre, sem negligenciar, é reveladora da situação da comunidade cristã a que Lucas se dirige: uma comunidade em que está então presente o fenómeno do relaxamento da fé e da oração. À distância de algumas dezenas de anos dos acontecimentos da vida de Jesus, a comunidade conhece fenómenos de mundanização da fé e de abandono (cf. Lc 8,13). Lucas adverte: abandonar a oração é a antecâmara do abandono da fé. O passar do tempo é a grande prova da fé e da oração. A oração insistente faz da fé uma relação quotidiana com o Senhor. O esforço de perseverar na oração é o esforço de dar tempo à oração, e o tempo é a substância da vida. Rezar é dar a vida pelo Senhor. A oração comporta um confronto com a morte e por isso resulta frequentemente difícil: rezando, não “fazemos” nada, não “produzimos”, vemo-nos estéreis e ineficazes. Mas ela é o espaço e o tempo em que nos predispomos para que o Senhor faça alguma coisa de nós.
As palavras de Jesus comportam também um ensinamento sobre a dimensão escatológica da oração. À pergunta que lhe fazem os fariseus – “Quando virá o Reino de Deus?” (Lc 17,20) –, Jesus respondeu no capítulo anterior (cf. Lc 17,21-37), mas agora completa a sua resposta com uma contra-pergunta: “O Filho do Homem, quando vier, encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18,8). Não se trata de fazer perguntas sobre a vinda final, mas de compreender a vinda final do Senhor como uma pergunta, a qual interpela os cristãos sobre a fé. A nós, que muitas vezes nos interrogamos: “Onde está Deus?”, “Onde está a promessa da vinda do Senhor?” (2Pt 3,4), o Senhor responde que nos pede contas da nossa fé: “Onde está a vossa fé?” (Lc 8,25). A vinda do Senhor não é tema de especulações teológicas abstractas, mas realidade de fé para se viver e se experimentar como esperaanseio na oração.
A oração da viúva que pede justiça mostra também os aspectos de audácia e de determinação da oração. A oração não se envergonha de pedir, não hesita em insistir, não cessa de bater à porta, não receia importunar. A oração exige coragem. A coragem da fé que leva a não desistir, a não negligenciar, a não dizer: “Não serve de nada.”
Oração e fé têm uma ligação inquebrável: crer significa rezar. E se é certo que só podemos rezar graças a uma fé viva, não é menos verdade que a nossa fé permanece viva graças à oração.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas