Tempo Comum

XXX Domingo

lucas touro arcabas

Sir 35,12-14.16-18;

Sl 33,2-3.17-18.19.-23;

2Tm 4,6-8.16-18;

Lc 18,9-14

Oração e autenticidade: esta a relação salientada pela passagem do Antigo Testamento e pelo evangelho. O Senhor aceita a oração do pobre e do oprimido (1.ª leitura) e acolhe a oração do publicano que se afirma pecador diante dele (evangelho). Há uma confiança em si próprio, um achar-se justo, que faz que não seja aceite a oração do fariseu no templo (cf. Lc 18,14), assim como há a possibilidade de um culto que é só uma farsa, uma  burla, porque praticado à mistura com injustiça e impiedade (cf. Sir 34,18-19; 35,11). Na oração reflecte-se e revela-se a autenticidade ou a falsidade daquilo que se vive.
A oração dos dois homens no templo, tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo, levanta-nos a questão do que significa rezar juntos, lado a lado, um perto do outro num mesmo lugar, numa liturgia. É possível rezar estando próximo e estar separados pela competição, pela comparação e pelo desprezo (“não sou como este publicano”: Lc 18,11). A autenticidade da oração, da oferenda feita ao Senhor no culto,  passa através da boa qualidade das relações com os irmãos que rezam comigo e que formam comigo o corpo de Cristo.
Na oração emerge também a nossa imagem de Deus, seja ela qual for, e a nossa imagem de nós próprios. O fariseu reza “voltado para dentro de si” (pròs heautòn: Lc 18,11) e a sua oração parece dominada pelo seu ego. Ele, formalmente, faz um agradecimento, mas na verdade agradece não aquilo que Deus fez por ele, mas antes aquilo que ele fez por Deus. O sentido do agradecimento fica assim completamente alterado: o seu “eu” substitui-se a “Deus”. A sua oração é na realidade um rol das suas prestações piedosas e um comprazimento do seu não ser “como os outros homens” (Lc 18,11). A elevada imagem de si próprio ofusca a de Deus e impede-o de ver como um irmão aquele que reza perto dele. A sua é a oração de quem se sente de bem com Deus: Deus não pode senão confirmá-lo naquilo que é e faz. É um Deus que não lhe pede nenhuma mudança e conversão porque tudo aquilo que ele faz está bem. O facto de que o olhar de Deus não aceita a sua oração (Lc 18,14: “o publicano voltou para casa justificado, ao contrário do outro”) desmente a sua presunção, mas afirma também que podemos rezar com hipocrisia e continuar a rezar sem alcançar autenticidade e verdade.
A diferença de atitude dos dois homens é visível também na postura do corpo que cada um assume: o fariseu exprime a sua segurança, o seu ser um habitué do lugar sagrado, ficando de pé, de cabeça erguida, enquanto o publicano exprime a sua contrição ficando à distância, quase intimidado, de cabeça baixa e batendo no peito. Rezamos sempre com o corpo e as posturas do corpo revelam a qualidade da relação com o Senhor e o sentido (ou não) do nosso estar na sua presença.
A oração requer humildade. E humildade é adesão à realidade, à pobreza e pequenez da condição humana, ao humus de que somos feitos. Humildade não é falsa modéstia, não equivale a um eu mínimo, mas é autenticidade, verdade pessoal. Esta é conhecimento corajoso de si perante Deus, que se manifestou a si próprio na humildade e no rebaixamento do Filho. Onde há humildade, há abertura à graça e há caridade; onde há orgulho, há sentido de superioridade e desprezo pelos outros.
Na oração tomamos como referência imagens de Deus, mas o caminho da oração mais não é do que um processo de contínua purificação das imagens de Deus a partir do Cristo crucificado, verdadeira imagem revelada de Deus que contesta todas as imagens fabricadas do divino.
A atitude do fariseu é emblemática de um tipo religioso que substitui a relação com o Senhor por desempenhos mensuráveis: ele jejua duas vezes por semana e paga a dízima de tudo quanto adquire. A relação com o Senhor sob o signo do Espírito e da gratuidade do amor é substituída por uma forma de procura de santificação mediante o controle (a contabilidade das acções meritórias) e que requer que se destaque dos outros.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas