Tempo Comum

XXXI Domingo

lucas touro arcabas

Sab 11,23-12,2;

Sl 144,1-2.8-9.10-11.13cd-14;

2Ts 1,11-2,2;

Lc 19,1-10

O texto do livro da Sabedoria fala do Deus que tem misericórdia (verbo eleéo: Sab 11,23) de todos, e não olha aos pecados dos homens pois tem em vista a sua conversão (metánoia: Sab 11,23); o evangelho apresenta Zaqueu como homem que faz a experiência da misericórdia do Senhor e como exemplo concreto de conversão.
Zaqueu procura ver Jesus, mas a multidão constitui para ele um obstáculo. Para encontrar Jesus é preciso sair do meio da multidão, ousar a sua singularidade, assumir os seus limites para encontrar o caminho pessoal, é necessária a coragem de “ser dissonante”.
A grandeza do pequeno Zaqueu está no modo inteligente como assume a limitação da sua estatura e se vale de um sicómoro, a que trepa, para poder ver Jesus. As limitações precisas que nos habitam (físicas, morais, intelectuais…), se forem assumidas com maturidade e inteligência, não nos impedem de encontrar o Senhor, antes permitem fazer acontecer esse encontro na verdade. Aquela assumpção também nos dá inteligência para saber recorrer a todas as criaturas que vivem perto porque suprem a nossa indigência.
Chefe dos publicanos e rico, Zaqueu provavelmente enriqueceu de modo desonesto, aproveitando as possiblidades oferecidas pelo sistema de colecta dos impostos. Ele, que pode ser etiquetado como pecador e desonesto, é habitado pelo desejo de encontrar Jesus, e procura com todas as suas forças vê-lo. O texto afirma que Zaqueu “procurava ver Jesus, quem ele era (tís estin)” (Lc 19,3), insinuando talvez o desejo de um conhecimento profundo de Jesus. E também Jesus não se fica pelo juízo exterior que poderia “arrumar” Zaqueu no cliché de pecador, não se resigna a considerá-lo apenas um pecador, mas manifesta o seu desejo de encontrá-lo, de ter comunhão com ele. E deste modo narra o desejo de Deus de encontrar cada homem, em particular os pecadores. O texto apresenta-nos assim o encontro do desejo de Deus e do desejo do homem, que é, para ambos, desejo de salvação.
Zaqueu procura ver Jesus, reconhecê-lo, mas dá-se conta de ser visto e conhecido pelo próprio Jesus (“Jesus levantou os olhos e disse-lhe: ‘Zaqueu…’”: Lc 19,5), que lhe manifesta mesmo a intenção de fazer uma paragem na casa dele, quase como se fosse um velho conhecido. O caminho que Zaqueu percorre para encontrar Jesus (correr adiante para evitar a multidão, trepar a uma árvore situada no trajecto que Jesus iria seguir) conduz à descoberta de que Jesus estava já a caminho para o encontrar: “O Filho do homem  veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Muitas vezes as nossas procuras e os nossos caminhos espirituais resultam na descoberta de que o Senhor nos procurava e já vinha ao nosso encontro. Estas nossas procuras são o nosso predispor tudo para o acontecimento da graça. A força do olhar de Jesus, que em Zaqueu não vê o publicano, o pecador, o homem de baixa estatura, o rico, mas um homem e “um filho de Abraão” (Lc 19,9), conduz Zaqueu a recuperar a vista, a redimir o seu olhar. Agora ele vê todos aqueles a quem subtraiu dinheiro indevidamente, vê os pobres, e intervém concretamente a favor deles (cf. Lc 19,8). Zaqueu quer ver Jesus (cf. Lc 19,3) e encontra o Senhor (cf. Lc 19,8) e os gestos de conversão que Zaqueu efectua não nascem de uma atitude de reprovação da parte de Jesus, mas do incondicional e surpreendente acolhimento que Jesus lhe reserva. É certo que, contraposta a isto, resta sempre a possibilidade de um olhar não evangelizado, um olhar que em Zaqueu não vê senão o pecador, e em Jesus uma pessoa com quem se escandalizar: “Vendo isto, todos murmuravam: ‘Foi hospedar-se em casa de um pecador’” (Lc 19,7).
Escreveu o padre Primo Mazzolari comentando este texto: “Eu posso também não ver o Senhor: ele vê-me sempre, não pode não me ver. Eu posso esquivar-me, ele não. O amor detém-se sempre e é retido pela piedade. Eu olho e escandalizo-me, olho e julgo, olho e condeno, olho e sigo caminho: ele olha-me, pára e comove-se.”

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas