1 de Novembro

Todos os Santos

lucas touro arcabas

Ap 7,2-4.9-14;

Sl 23,11-2.3-4ab.5-6;

1Jo 3,1-3;

Mt 5,1-12a

A celebração da comunhão de todos os santos do céu e da terra é também memória da Igreja una e santa, Igreja que consiste precisamente na communio sanctorum. Os crentes que, reunidos em volta do altar eucarístico, participam nas coisas santas e comungam Aquele que é a própria fonte da santidade, conhecem a comunhão com os santo que já vivem em Deus: nesta celebração, portanto, a Igreja é tomada no seu aspecto terrestre e celeste.
Um elemento específico poderia ser tomado como unificador das três leituras. Se uma das bem-aventuranças é dirigida aos “puros de coração” (Mt 5,8), a 2.ª leitura afirma que os cristãos que esperam no Senhor ficam purificados como Ele, que é puro (cf. 1Jo 3,3), e a passagem do Apocalipse fala dos redimidos como “aqueles que passaram através da grande tribulação e lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro, deixando-as brancas (Ap 7,14). A purificação operada pela graça do Senhor e simbolizada pelo baptismo torna os crentes os chamados à pureza do coração. Não se trata de pureza cultual, nem de pureza de tipo moral e, em particular, sexual, mas de uma pureza existencial que se manifesta no plano relacional e que se condensa na caridade, que é o outro nome da santidade. Trata-se de uma pureza que é graça, portanto já não é adquirida de uma vez por todas, mas é sempre uma meta que está diante do crente e que o impele a unificar o seu coração diante do Senhor.
Pode proclamar a bem-aventurança dos misericordiosos e dos puros de coração, dos pobres em espírito e dos mansos, dos fazedores de paz e dos perseguidos por causa  da justiça, dos aflitos e daqueles que têm fome e sede de justiça quem experimentou bem-aventurança em tais situações. As bem-aventuranças remetem, portanto, para Jesus e revestem-se de uma primeira e fundamental dimensão cristológica: Jesus é o pobre em espírito, o manso, o misericordioso… Jesus é o homem das bem-aventuranças. As bem-aventuranças aparecem assim como expressão directa do Evangelho, que é precisamente boa notícia, promessa de felicidade. As bem-aventuranças esboçam para o crente um caminho de profundidade e de interioridade que o conduz a seguir os passos de Cristo e a crescer na sua estatura até partilhar o grito de júbilo de Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Este é, decididamente, o verdadeiro motivo da bem-aventurança.
A festa de hoje celebra a grande comunhão que envolve o crente. E o crente torna eloquente a santidade testemunhando-a aos homens como comunhão. O santo é o homem capaz de comunhão, mas que forjou essa capacidade a preço também de grande solidão e marginalização. Perseguições, insultos e calúnias podem ser situações que o crente é forçado a sofrer, mas que, vividas em Cristo, não o endurecem, mas tornam-no um alter Christus.
 “Não há senão uma tristeza, a de não sermos santos” (Léon Bloy). A santidade expressa pela bem-aventurança compreende também a dimensão da felicidade, da alegria: “Exultai e alegrai-vos, porque grande é a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12). Aqui percebe-se também a dimensão escatológica das bem-aventuranças, que parecem ser as condições essenciais hoje para o amanhã do Reino. Viver o espírito das bem-aventuranças significa viver profeticamente (cf. Mt 5,12: “Assim perseguiram os profetas antes de vós”). Aquele que vive em Cristo narra a alteridade de Deus no hoje dos homens e sofre as marginalizações e as perseguições desencadeadas contra quem não alinha com os que dominam no mundo.
Um texto sobre S. Francisco exprime bem o espírito das bem-aventuranças e o cerne da santidade cristã. Depois de ter afirmado que a verdadeira felicidade (bem-aventurança) não é o êxito da ordem ou do apostolado dos frades, Francisco diz ao irmão Leone que, se, num inverno frio, chegando a pé ao cair da noite a um seu convento, depois de se dar a conhecer, ele for expulso com maus modos pelos seus irmãos e souber aceitar isso com paciência e sem se perturbar, pois “aí está a felicidade perfeita e aí está  a verdadeira virtude e a salvação da alma”.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas