Festa

Jesus Cristo, Rei do Universo

lucas touro arcabas

2Sm 5,1-3;

Sl 121,1-2.3-4a.4b-5;

Cl 1,12-20;

Lc 23,35-43

As leituras deste último domingo do ano litúrgico, que celebra Cristo como Senhor e rei do Universo, apresentam a realeza na sua dimensão comunional, corporal. Na 1.ª leitura, as tribos de Israel reconhecem David como rei e parecem perceber o Messias como símbolo corporal. Elas confiam-se a ele quase se incorporando simbolicamente nele: “Nós consideramo-nos como teus ossos e tua carne” (2Sm 5,1). No evangelho ficamos perante Jesus como Messias débil, inerme, que, sobre a cruz, enquanto se confia radicalmente a Deus (cf. Lc 23,46), vê confiar-se a ele um malfeitor ao seu lado. E Jesus promete-lhe comunhão, incorpora em si este homem prometendo-lhe comunhão: “Hoje, estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). A segunda leitura exprime a fé agora desenvolvida pela Igreja, que celebra a incorporação cósmica no Cristo Ressuscitado: tudo foi criado em Cristo, por meio dele, mas também tendo-o em vista, para ser retomado nele.
Por três vezes Jesus é ridicularizado como Messias e por três vezes os seus adversários o desafiam a salvar-se a si mesmo, quase como se a capacidade de subtrair-se à cruz, de salvar a própria vida, fosse para eles o selo da autenticidade da messianidade (cf. Lc 23,35.37.39). Ao contrário, é exactamente a auto-salvação aquilo que é impossível no espaço cristão, aquilo que contradiz radicalmente a salvação cristã. Jesus tinha anunciado: “Quem quiser salvar a própria vida perdê-la-á, mas quem perder a própria vida salvá-la-á” (Lc 9,24). Mas antes de anunciar que quem perder a vida por sua causa a salvará, ele próprio passou através da experiência de perder a própria vida, de perder-se a si mesmo. Pôr a salvo a própria vida é a grande tentação, à qual Jesus se opôs já durante as tentações inaugurais do seu ministério (cf. Lc 4,1-13). E é a tentação perene do cristão e da Igreja. De facto, vale também para a Igreja a afirmação de Jesus de que quem se procurar a si mesmo, quem quer salvar-se a si mesmo, ou melhor, quem faz de si mesmo um fim, o seu fim, perde-se a si próprio.
A realeza de Jesus é ridicularizada (vv. 35-37) ou insultada (v. 39); faz-se pouco dela ou tenta-se  usá-la em proveito próprio. Jesus habita o escândalo do Messias perdido que pode assim chegar a quem quer que se encontre em situações de perdição. De resto, sabemos que condição indispensável para ir ao encontro e ajudar o outro no seu sofrimento é partilhar alguma coisa da sua impotência e fraqueza. Escreve Dietrich Bonhoeffer: “Cristo não ajuda pela força da sua omnipotência, mas em virtude da sua fraqueza e do seu sofrimento […] A Bíblia remete o homem para a impotência e para o sofrimento de Deus; só o Deus sofredor pode ajudar.” A realeza de Jesus inverte, portanto, a lógica de poder e força que rege as realezas humanas.
Jesus mostra a sua senhoria manifestando a sua capacidade de juízo e de divisão: ele é sinal de contradição e perante ele dividimo-nos, manifestam-se os pensamentos dos corações. Dos dois crucificados com ele, um insulta-o, o outro implora-lhe. Em particular, o chamado “bom ladrão” representa o modelo do discípulo cristão. Ele faz, antes de mais, a correcção fraterna, “repreendendo” (v. 40) o outro condenado que insulta Jesus, e pondo assim em prática a palavra de Jesus: “Se o teu irmão peca, repreende-o” (Lc 17,3); além disso, ele parece um símbolo da responsabilidade: reconhece o mal que cometeu e aceita as consequências (v. 41a); a seguir, profere uma confissão de fé, reconhecendo a inocência de Jesus (v. 41b); por fim, dirige-se a Jesus com o pedido, a súplica, e reconhecendo a sua realeza escatológica: “Jesus, lembra-te de mim quando chegares (não “entrares”, como traduz a Bíblia CEI) ao teu Reino” (v. 42). Imagens dos crentes e da Igreja que, na história, são chamados a testemunhar a realeza de Cristo partilhando os sofrimentos do Crucificado, invocando a vinda do Reino e esperando o Que Vem em glória.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas