Tempo da Quaresma

II Domingo

lucas touro arcabas

Gn 15,5-12.17-18;

Sl 26,1.7-8a.8b-9abc.13-14;

Fl 3,17-4,1;

Lc 9,28b-36

A aliança é o tema unificador das leituras de hoje. Deus estabelece uma aliança com Abraão prometendo-lhe uma descendência numerosa, a ele que era idoso e não tinha filhos. Aqui, a aliança é uma promessa unilateral de Deus, a que Abraão responde com a (1.ª leitura). Jesus é o Filho que vive totalmente a aliança com Deus: a oração é o âmbito da sua transfiguração, do seu fazer-se transparência à presença do próprio Deus. As palavras que Deus pronuncia indicam aos cristãos o caminho por onde aceder à aliança e à comunhão com ele: escutar o Filho (evangelho). Paulo põe a tónica no cumprimento escatológico da aliança estabelecida por Deus em Cristo e fala da espera e da esperança da transfiguração dos seus corpos de miséria, atitude que os cristãos de Filipo mantêm (2.ª leitura). Fé, esperança e oração são elementos decisivos da abertura do crente à acção transformadora de Deus.
Segundo Lucas, a transfiguração de Jesus acontece no contexto da sua oração, no mistério do seu colóquio íntimo e indizível com o Pai. “Enquanto orava, o aspecto do seu rosto alterou-se” (Lc 9,29): não um outro rosto, mas um rosto outro. A oração é para Jesus espaço de acolhimento em si da alteridade de Deus: se o rosto é o lugar essencial de cristalização da identidade, então a oração incide sobre a identidade pessoal. O tornar-se outro do rosto de Jesus diz que a partir de agora o seu rosto narra o rosto invisível de Deus. A oração age sobre aquele que reza e faz emergir a sua identidade profunda.
A oração é comunicação de Deus a Jesus mediada pela “conversa” de Moisés e Elias com o próprio Jesus. A sucessão “Moisés e Elias” reflecte a expressão “Moisés e os profetas” que em Lucas indica a Escritura, a Lei e os Profetas (cf. Lc 16,29.31; 24,27). Ou seja, a oração de Jesus parece ser essencialmente escuta da Palavra de Deus através da Escritura, mas uma escuta que se torna conversação com quem está vivo em Deus, uma verdadeira experiência de comunhão dos santos. A Palavra de Deus, que é luz sobre os passos do homem, transmite luz e ilumina quem a escuta (cf. Lc 9,29). De resto, “escutar” significa fazer habitar o outro em nós, fazer-se morada do outro.
Na oração Jesus encontra confirmação do seu próprio caminho, doravante orientado para a paixão, morte e ressurreição (cf. Lc 9,22), e entende-o em continuidade com a história de salvação conduzida por Deus para com o seu povo: com efeito, Moisés e Elias falavam com ele do seu “êxodo” (Lc 9,31 literalmente) que se consumaria em Jerusalém. Não por acaso, pouco depois, especifica-se que Jesus voltará resolutamente o seu rosto e os seus passos na direcção de Jerusalém (cf. Lc 9,51). A oração ilumina e orienta as decisões existenciais. A escuta da Palavra de Deus e a oração, ao mesmo tempo que confirmam Jesus no ser Filho em relação ao Pai, dão-lhe forças para enfrentar a hostilidade dos homens. A sua solidão (“Jesus ficou só”: Lc 9,36) é sinal da resolução daquele que vive a comunhão com o Pai.
A maneira como os discípulos chegam a ver a transfiguração de Jesus é a vigilância, a luta contra o sono que torna o corpo pesado e tolda a lucidez. E assiste-se também à mudança dos discípulos que passam de um falar insensato (Pedro que “não sabia o que dizia”: v. 33), à escuta (“Escutai-o”: v. 35) e por fim ao silêncio (“Eles guardaram silêncio e não contaram nada a ninguém”: v. 36). É o silêncio que guarda o mistério do acontecimento a que assistiram.
Como David não pôde construir uma casa para o Senhor, mas o Senhor fez para ele uma casa, isto é, deu-lhe uma descendência, também a Pedro é recusado o seu desejo de construir tendas para Jesus, Moisés e Elias e vê-se a habitar a nuvem que o envolve. Compreendida muitas vezes pelos Padres da Igreja como referência ao Espírito Santo, mas também à Escritura (p. ex., Pedro de La Celle, no século XII), a nuvem que envolve Pedro indica o necessário entrar na Escritura e deixar-se habitar pelo Espírito para escutar o Senhor e entrar na comunhão com ele.

 

Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano C de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Lucas): Touro - Arcabas