Quaresma

IV domingo da Quaresma

mateus homem arcabas

1Sm 16,1b-4.6-7.10-13a;

Sl 22,1-6;

Ef 5,8-14;

Jo 9,1-41

No centro do IV domingo da Quaresma está o tema da iluminação, da passagem das trevas à luz expressa no evangelho da narração da cura do homem cego de nascença, que adquire o sentido de uma pedagogia para a fé cristológica. Na 2.ª leitura, o tema tem valência baptismal e é tomado nas suas implicações éticas: a iluminação baptismal compromete a uma vida de conversão (“Outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor: procedei como filhos da luz”: Ef 5,8). Em paralelo com este anúncio, a 1.ª leitura apresenta a unção real de David por Samuel: os gestos e as palavras do profeta que consagram o Messias remetem para as palavras e os gestos de Jesus, “luz do mundo” (Jo 9,5), que dá luz a quem está nas trevas com gestos e palavras que evocam a dinâmica sacramental.
As três leituras levantam o problema do discernimento. Trata-se do difícil discernimento de Samuel para escolher aquele que Deus elegeu entre os filhos de Jessé. Para discernir é necessário olhar como o próprio Deus olha, na consciência de que se “o homem vê a aparência, o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7), ou, como recita a antiga versão siríaca: “o homem vê com os olhos, o Senhor olha com o coração”. Na 2.ª leitura, o discernimento é pedido ao baptizado que, na situação em que é “luz no Senhor”, é chamado a discernir o que é agradável a Deus (cf. Ef 5,10-11). O texto do evangelho começa com os olhares diferentes de Jesus e dos discípulos para um cego e prossegue com o percurso que leva o cego curado a discernir a verdadeira qualidade de Jesus e a confessar a fé nele, enquanto outros protagonistas do episódio se fecham a tal discernimento e permanecem na cegueira espiritual (cf. Jo 9,39-41).  
No evangelho, Jesus e os discípulos encontram um homem cego, mas vêem-no com olhares muito diferentes. Cegos por um axioma teológico que associa de modo automático a doença ao pecado, os discípulos vêem nele um pecador, ao passo que Jesus vê na doença daquele homem a ocasião de se manifestar a acção de Deus. A mesma pessoa, olhares diametalmente opostos. Quem vemos ao olhar um doente? O que vemos no sofrimento do outro? O olhar culpabilizador dos discípulos opõe-se ao olhar de solidariedade de Jesus.
O texto apresenta-se como uma iniciação em que o homem que era cego obtém a vista e chega ao conhecimento da identidade profunda de Jesus, um conhecimento que é também um co-nascimento, um renascer, o nascer para uma vida completamente renovada pelo encontro com Jesus e expressa pela lapidar confissão de fé: “Eu creio, Senhor” (Jo 9,38).
O gesto terapêutico aplicado por Jesus ao cego, quando fez uma pasta de lama e a aplicou sobre os olhos do homem (cf. Jo 9,7), recorda o gesto com que Deus criou Adão, moldando-o com pó da terra (cf. Gn 2,7). A re-criação não tem nada de mágico ou de espiritualista, mas tem um valor humaníssimo e conduz aquele que era apenas objecto de palavras e juízos de outros a tornar-se sujeito, a assumir a sua própria vida, a tomar a palavra e a reivindicar a sua identidade: “Sou eu” (Jo 9,9). Aquele “sou eu” é essencial para poder chegar a proclamar em liberdade e com convicção: “Eu creio!” Tornarmo-nos crentes não nos exime de tornarmo-nos pessoas. Antes o exige.  
Perante o cego curado, uma primeira reacção é a dos que o conheciam e que fazem perguntas, interrogam, mas não se interrogam, nunca se põem em causa a si mesmos e, assim, ficam na superfície do acontecimento (vv. 8-12). Há depois a atitude dos pais que, por medo não vão além de uma banal e desinteressada constatação do facto (vv. 18-23). Há o saber teológico dos fariseus, um saber auto-suficiente e impermeável que se torna obtusidade, levando-os a acusar Jesus (vv. 13-17) e o próprio cego curado de serem pecadores (vv.24-34), em vez de se deixarem inerpelar pelo acontecimento extraordinário. Quem é cego e quem vê? Esta a pergunta que o texto suscita. E esta a resposta: vê quem sabe ver a sua própria cegueira e abrir-se à acção curativa e iluminadora de Cristo. “Se fôsseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece” (v. 41).

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas