Festa

Ascensão do Senhor

mateus homem arcabas

Act 1,1-11;

Sl 46,2-3.6-7.8-9;

Ef 1,17-23;

Mt 28,16-20

Jesus, que “foi elevado ao céu” (Act 1,11), que o Pai “fez sentar-se à sua direita no céu (Ef 1,20) e que de Deus recebeu “todo o poder no céu e na terra” (Mt 28,18), faz da sua ausência física uma presença invisível, uma companhia para os seus discípulos: “Estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). O resultado do dom da vida pelos seus amigo, os homens, é estar com eles para sempre, de modo misterioso, mas real.
“Ali, onde nos precedeu a glória do líder, é chamada outrossim a esperança do corpo”, afirma Leão Magno a propósito da ascensão (Sermo 73,4). E a segunda leitura fala expressamente da esperança aberta pela vocação cristã, por Cristo ressuscitado e ascendido ao céu (cf. Ef 1,18); esperança escatológica, mas que insere plenamente os cristãos na história, chamando-os ao testemunho sob a força do Espírito Santo (1.ª leitura); esperança assegurada pela proximidade e pela companhia do Ressuscitado em relação aos discípulos, que se vêem assim apoiados no seu empenho quotidiano de serviço ao evangelho (evangelho).
O vazio deixado pela ascensão de Jesus deve ser colmatado pelo testemunho (cf. Act 1,8) e pelo ensinamento (cf. Mt 28,20) dos discípulos. As duas coisas são distintas, mas estão também estreitamente ligadas. Ensinar significa fazer sinal (in-signare), dar símbolos e chaves hermenêuticas da realidade. Mestre credível é aquele que vive na 1.ª pessoa o que ensina e que vive do que ensina. Ou, pelo menos, procura fazê-lo. A figura de mestre que o Evangelho constrói, na esteira de Jesus de Nazaré, que é ao mesmo tempo mestre e ensinamento, é também a de uma testemunha: não se pode ensinar o Evangelho sem o viver. O Evangelho, de facto, é o mandamento deixado pelo Senhor aos seus: “Ensinai […] tudo o que vos tenho mandado a vós” (Mt 28,20).
O mandado de ensinar os povos e fazê-los discípulos é um trabalho gerador e significa educar para a fé, transmitir a fé, exercer uma função de paternidade que introduza o homem na relação com Deus. Esta a missão da Igreja na história “até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Missão que a Igreja pode desempenhar se confiar na promessa do Ressuscitado: “Estou convosco até ao fim do mundo”. Estas palavras não são uma garantia, mas uma promessa: e numa promessa acredita-se, confia-se, sem outra garantia que não a fiabilidade daquele que falou. O qual, ao prometer, prometeu-se a si próprio, a sua presença. Além disso, aquelas palavras – “Estou convosco” – devem ser deixadas na boca do Senhor: ficam completamente distorcidas se postas na boca de homens que dizem: “Deus está connosco.” Essa já não é a promessa de um Outro a quem nos confiamos todos os dias com humildade, temor e tremor, mas afirmação humana que funda uma prática violenta e impositiva, arrogante e agressiva.
As palavras “Estou convosco” situam-se no espaço da fé e da esperança, as palavras “Deus está connosco” ficam no espaço da certeza e do saber (e escondem ilusão e mentira): se as primeiras abrem o futuro (e abrem-no indefinidamente: “até ao fim do mundo”), as segundas fecham-no irremediavelmente. Transmitir a fé é, portanto, também dar esperança.
A promessa solene do Ressuscitado evoca a fórmula de aliança pela qual Deus se liga ao povo (“Eu serei o vosso Deus”) e, sobretudo, evoca a presença de Deus no meio do povo, no templo. Aquelas palavras fundam, portanto, a comunidade cristã como lugar da presença santa de Deus, como templo, mas templo de corpos e de relações. A promessa “Estou convosco” compromete o “vós” a perseverar, a permanecer na caridade fraterna, nos laços recíprocos, e a fazer reinar sobre estes o nome de Deus (“Eu sou”) revelado pelo rosto de Jesus de Nazaré. A presença do Senhor é experimentada como dom graças à fidelidade dos crentes. Por sua vez, a custosa fidelidade quotidiana (“todos os dias”) dos crentes é sustentada pela esperança suscitada pela promessa: “Com a tua promessa, fizeste-me esperar” (Quoniam promisisti, me sperare fecisti: Agostinho, Enarr. in Ps. 118,15,1).

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas