Tempo Comum

XXII Domingo

mateus homem arcabas

Jr 20,7-9;

Sl 62,2.3-4.5-6.8-9;

Rm 12,1-2;

Mt 16,21-27

A obediência à Palavra de Deus conduz o profeta a denunciar as injustiças e as violências que se cometem no seio do povo de Deus e a enfrentar assim oposição, marginalização e zombaria da parte daqueles para quem profetiza (1.ª leitura); o seguimento de Jesus introduz o discípulo num caminho marcado pela assunção da cruz e cujo horizonte é a perda da vida (evangelho).
A experiência espiritual de Jeremias, depois do entusiasmo da adesão ao Senhor e a doçura e a beleza experimentadas nos momentos iniciais do chamamento, quando a Palavra do Senhor foi para ele “a alegria e a felicidade do seu coração” (cf. Jr 15,16), tornou-se com o passar dos anos e o desenrolar do seu ministério profético, experiência de amargura e sofrimento. O profeta sente-se enganado por Deus: foi verdadeira a vocação? Ou tratou-se de uma ilusão? De um engano? Deus chamou-o ou violentou-o? No centro da crise, em que o profeta é tentado a abandonar o ministério recebido (“Não falarei mais em seu nome”: Jr 20,9), Jeremias encontra a renovação e a confirmação da vocação no mais profundo de si próprio, no coração ainda inflamado pela Palavra de Deus. Se o Senhor é uma paixão, então também a crise será um momento de verdade da fé e da vocação. O Senhor como paixão: este é o desafio para o cristão hoje.
Pedro, Cefas, a “rocha”, aquele que é chamado a confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22,32), a quem o Senhor confiou uma missão basilar na Igreja (cf. Mt 16,18), pode tornar-se “escândalo”, isto é, pedra de tropeço no caminho de fé. Jesus verdadeiramente censura-o com dureza, apostrofando-o de “satanás” (Mt 16,23). E isto acontece quando Pedro sai do seguimento para pôr-se diante de Jesus e o repreender. Então demonstra não sentir e não pensar segundo Deus, mas de forma mundana. Assim a felicidade referida por Jesus a Pedro em Mt 16,17 não é decerto anulada, mas redimensionada por esta repreensão que coloca Pedro numa luz muito realista. Único é o fundamento da Igreja: Jesus Cristo (cf. 1Cor 3,11; 1Pe 2,4-5). O serviço de Pedro está ao serviço desta unicidade.
A cruz é sempre escândalo: só integrando o escândalo da cruz no nosso caminho de fé podemos evitar tornarmo-nos nós próprios motivo de escândalo pelo Evangelho e escandalizarmo-nos nós com o Messias crucificado cf. Mt 26,31: “Todos ficareis perturbados por minha causa esta noite”). Pedro, na sua rebelião contra a cruz de Jesus, exprime a atitude de repulsa que também é frequentemente a nossa e que nos leva a confessar sinceramente a fé e a desmentir essa confissão na prática. A cruz é o elemento mais radicalmente estranho ao “mundo”: o Pedro que se rebela contra ela mostra o seu conformismo mundano, o seu estar conforme aos parâmetros e aos critérios da mundanidade, o seu pensar e sentir de modo conforme aos homens e não segundo Deus.
As palavras de Jesus ao discípulo falam da perda de si, necessária para se ficar em contacto com o seu verdadeiro si (cf. Mt 16,24-26). Há um renegar-se a si mesmo, deixar de conhecer-se a si mesmo, sair de uma vida autocentrada, da procura de autojustificação, que permite ao discípulo encontrar, como dom, e ser alcançado, por graça, pela verdadeira vida. Trata-se da passagem pascal da vida como propriedade e como poder, para a vida como dom e como graça. É a vida vivida em Cristo e por Cristo, é a vida de Cristo em nós: “Quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la” (Mt 16,25).
“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?” (Mt 16,26). O texto entrevê a situação de homens todos empenhados em possuir, em alargar a sua acção e o seu acumular fora de si, falhando de facto a sua própria vida, perdendo-se. Talvez, todos extrovertidos precisamente para não se encontrarem a si mesmos, para não entrarem no doloroso frente a frente com eles próprios.
Seguir Cristo significa pôr a própria vida na vida dele por amor. Aquilo que por amor se perde, na realidade não é perdido, é dado. E o que é dado por amor é reencontrado na relação.

 Selecção extraída de Reflexões sobre as Leituras - Ano A de Luciano Manicardi, monge de Bose

Tradução do original por Rita Veiga

Imagem (Mateus): Homem - Arcabas