Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus

Manuela Silva

Setembro 2018

Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele.

(I Co 12, 26)

criançasNos últimos dias, veio a público a denúncia feita pelo Procurador-geral do Estado da Pensilvânia de que, durante mais de 70 anos, teria sido praticado um número considerável de crimes de abuso sexual de menores, por parte de clérigos e pessoas consagradas, factos estes testemunhados com queixas de mais de 1000 vítimas sobreviventes recolhidas por um Grande Júri.
Esta denúncia acresce a outras que têm vindo a ser conhecidas em diferentes países, como sucedeu recentemente na Austrália, no Chile ou na Irlanda. É de admitir que o processo de desocultação continue e venham a surgir, dentro em breve, novas denúncias em outros países e continentes. Se sofremos com a situação, só temos que nos regozijar com a verdade e a possibilidade de fazer justiça às vítimas.
Os casos já apresentados não podem deixar de nos comover e interpelar, pois estamos perante crimes horrendos de abuso, de poder e de consciência, perpetrados contra vítimas frágeis e indefesas, crimes de violação de direitos humanos, crimes contra a Humanidade.
O facto de tais actos ocorrerem no seio de comunidades cristãs e terem sido praticados por clérigos e religiosos e, em muitos casos, terem sido encobertos pelas autoridades eclesiásticas que deles tomaram conhecimento e nada fizeram para os evitar e sancionar, deixa-nos com redobrada indignação e vergonha e bem assim impõe que nos questionemos sobre a organização da própria vida eclesial e os estilos de celebração e de vida das comunidades eclesiais, por estas e as suas hierarquias não terem estado à altura de prevenir e sancionar, com o devido rigor, os casos conhecidos.
Dada a gravidade da situação, entendeu o Papa Francisco dirigir uma mensagem a todo o povo de Deus, pois a situação, além das feridas abertas na vida dos menores ofendidos e das suas famílias, que nunca é demais reconhecer e lamentar, deixa feridas também nas comunidades eclesiais que, durante tanto tempo, as ocultaram e compromete gravemente a missão perene da Igreja no anúncio de Cristo e do Evangelho. Porque a situação assume contornos da maior relevância, a Carta foi destinada a todo o Povo de Deus ou seja a todos os cristãos: leigos, clérigos e religiosos. 
A abrangência dos destinatários desta Carta revela, só por isso, a preocupação do Sumo Pontífice de que a Igreja universal desperte para esta realidade e se empenhe em ultrapassar a crise agora despoletada com consequências nefastas difíceis de prever. Por outro lado, indirectamente, o Papa Francisco, reconhece que a questão não pode ser confiada, apenas, ao clero e à hierarquia, pois é a própria organização institucional que carece de uma nova reforma, para melhor se adequar ao desígnio do Mestre e aos sinais dos tempos. Por múltiplas razões, é, pois, indispensável que cada batizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos.
Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele (I Co 12, 26). Com esta citação de São Pa
ulo, para início da sua Carta ao Povo de Deus, Francisco reconhece, em primeiríssimo lugar, o enorme sofrimento das vítimas dos abusos e a dor das suas famílias, com feridas que permanecem e danos que jamais prescrevem. Assume, também, que a dor das vítimas é também a nossa dor, de crentes e não crentes. É a dor de uma Humanidade ferida que não foi – não é – capaz de estar à altura de proteger os seus membros mais frágeis. É a dor de toda a Igreja ao confrontar-se com a incoerência gritante entre a Palavra de salvação de que é anunciadora e a prática de vida de alguns dos seus membros e comunidades que a contradizem e a tornam irrelevante aos olhos de muitos.

Em suma: o Papa constata, com vergonha e arrependimento, que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas.

Dada a dimensão e a gravidade dos factos já conhecidos, não basta afirmar sentimentos de repúdio, compaixão e solidariedade com as vítimas; há, igualmente, que assumir a culpa com toda a humildade, pedir publicamente o perdão com sinceridade e contrição e reparar o mal cometido, com generosidade e na medida do ainda possível.

Estes imperativos dirigem-se a todo o povo de Deus e não devem ser subestimados, tanto no plano da conversão individual a que os cristãos são chamados ao longo de toda a sua vida, como por parte dos pastores e outros responsáveis pelos diferentes ministérios eclesiais de quem se espera empenho máximo na divulgação desta carta como no tomar de iniciativas que permitam prevenir e sancionar os crimes contra os menores e pessoas mais vulneráveis, das respectivas áreas de responsabilização.

Os abusos de menores e o seu encobrimento ao longo de décadas denunciados pelo Grande Júri do Estado da Pensilvânia e a repercussão que esta investigação está a ter a nível da opinião pública mundial vêm pôr a descoberto a crise sistémica que atravessa a Igreja e aponta a necessidade urgente de encontrar solução para superar os malefícios do clericalismo reinante, da falta de participação efectiva e responsável de todos os membros das comunidades nas decisões que a todos respeitam, das discriminações, designadamente em relação às mulheres, da impreparação bíblica, falta de actualização teológica e de aprofundamento espiritual. Acresce, ainda, que importa atender à necessidade de alterar estruturas de poder que devem passar a ser de serviço, a relação da Igreja com o mundo, a permissividade relativamente à cultura de morte e aa indiferença e descuido pela protecção devida aos mais frágeis.

O Papa reconhece que as actuais estruturas da organização da Igreja propiciam formas de nepotismo que induzem comportamentos indesejáveis, decorrentes da centralidade conferida à instituição e à defesa da sua imagem, em prejuízo do anúncio e da vivência da radicalidade do Evangelho e da verdade e coerência na celebração da fé. 

Nos últimos dias, têm-se multiplicado as manifestações de apoio ao Papa Francisco pela audácia do seu gesto em escrever esta Carta e endereçá-la ao Povo de Deus, pela humanidade e espiritualidade do seu conteúdo, pela exigência de justiça e solidariedade com as vítimas e, ainda, pelo desafio lançado quanto ao urgente combate do clericalismo e pelo incentivo a que se prossiga uma nova reforma da Igreja. 

Por outro lado, e como seria de esperar, não têm faltado vozes de descontentamento com o argumento de que não se foi tão longe quanto seria desejável relativamente ao enunciado de medidas concretas e a tomada de resoluções imediatas, designadamente no que se refere ao sancionamento dos prevaricadores (por exemplo, decretando uma investigação universal com a participação de leigos competentes) e daqueles que, tendo obrigação de denunciar crimes públicos, não o fizeram atempadamente ou ao desencadear de iniciativas para uma nova reforma da Igreja que dê continuidade ao concílio Vaticano II e à implementação efectiva da sua doutrina, ou, também, uma nova configuração das regras de acesso ao sacerdócio e requisitos de formação adequados a diferentes ministérios considerados como serviço e não como distinção e privilégio associado a uma carreira profissional. 

Concluo este escrito com uma tríplice proposta: por todos os meios ao nosso alcance, leiamos e demos a conhecer o conteúdo da Carta ao Povo de Deus; nas nossas comunidades, suscitemos a reflexão sobre a problemática em causa; incentivemos o devido e atempado pronunciamento dos nossos bispos, párocos e superiores das Congregações religiosas, no sentido da “tolerância zero” aos abusos de menores e de pessoas mais vulneráveis e de “cuidado máximo” com a protecção dos menores e dos mais vulneráveis. 

Créditos de imagem: Amigos, in revistaecclesia.com