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A urgência de uma mística de olhos abertos e coração compassivo

Manuela Silva

Outubro 2018

(…) tomamos consciência da necessidade e urgência de uma mística de olhos abertos, coração solidário e amor politicamente eficaz, de uma mística que leve a escutar o grito da Terra, o clamor de milhões de pessoas famintas de pão e de direitos humanos e lutar por outro mundo possível.

(Mensagem final do 38º Congresso de Teologia, Madrid, 9 Setembro 2018)

furacao Florence 2018Nos últimos dias, a comunicação social tem permitido que acompanhemos em tempo real as grandes calamidades que têm assolado o nosso planeta em vastas regiões do Mundo e evidenciado as suas consequências dramáticas, visíveis no número de vítimas, deslocações forçadas de milhões de pessoas, perdas de bens materiais irreparáveis.
Talvez não inteiramente, mas seguramente em parte, a violência destes fenómenos naturais e a sua maior frequência vêm alertar-nos para as alterações climáticas em curso e para as suas causas e, por esta via, evidenciar que precisamos de agir com determinação, responsabilizando por isso os diferentes actores políticos e instituições.
Não basta, porém, acumular conhecimento e compreensão destes fenómenos ou multiplicar iniciativas de alto nível para firmar acordos internacionais para minimizar os seus impactos; a experiência vem mostrando que é fundamental que mudem as atitudes e os comportamentos da Humanidade, nomeadamente no que se refere à cultura, à economia, à solidariedade e que se crie e generalize uma mística de “cuidado com a casa comum”.
Porquê convocar a mística para enfrentar alterações climáticas e demais crises ecológicas? E com que contornos?
Em primeiro lugar, há que reabilitar a palavra mística e tomá-la como parte da realidade humana e não como algo patológico equivalente a fuga da realidade; em segundo lugar, há que reconhecer que o ser humano não é apenas movido pela inteligência e pela razão, nem está necessariamente acorrentado ao desejo de sobrevivência e ao interesse egoísta e míope. O ser humano é também dotado de sentimentos e de consciência emocional e reconhecemos que estes induzem o seu olhar acerca da realidade, influenciam os seus desejos, as suas atitudes e os seus comportamentos, orientam as suas escolhas e o seu agir.
Na perspectiva cristã, a mística é abertura ao mistério e à transcendência de Deus, que vai sendo descoberta através da contemplação da sua obra, a Criação, a revelação da sua Palavra, o testemunho da morte e ressurreição de Jesus, o dom do Espírito agindo no espaço e no tempo.
A mística cristã conduz-nos a um conhecimento intuitivo e afectivo em relação com tudo o que se passa no mundo. Como diz o Papa Francisco a propósito da ecologia: Nada deste mundo nos é indiferente. (Laudato si’’,3 e seguintes)
A mística cristã leva-nos a sair da autorreferencialidade e coloca-nos na perspectiva das vítimas, as pessoas e todos os demais seres vivos, o planeta em que habitamos, as gerações presentes e as futuras. Porque assumimos, interiormente, ser parte de um todo. Deste modo, podemos reconhecer: Também somos Terra!
A mística cristã não consente em atitudes de passividade e conformismo; ao invés, gera liberdade de espírito para pensar e fomenta a crítica das instituições e dos poderes instituídos ou fáticos, denunciando os seus desmandos e procurando viabilizar caminhos de soluções alternativas, no sentido da justiça e da ecologia integral.
As pessoas místicas são criativas, tanto na denúncia do que está mal como na imaginação de novos rumos portadores de futuro. Não se deixam seduzir pelo consumismo, pelas modas e o inerente desperdício de recursos ou pelo crescimento económico sem limites. Privilegiam o bom relacionamento interpessoal, o bom uso do tempo, a simplicidade no seu estilo de vida, a partilha equitativa dos bens, a coesão social e a convivência pacífica entre os povos. Têm liberdade para deixar que germinem novos paradigmas de relacionamento entre pessoas, comunidades e povos. Têm o sentido de uma paciente urgência e um coração atento, solidário e compassivo.
Concluo evocando o testemunho de Jesus, o carpinteiro de Nazaré, pequena cidade sem nome e sem relevo na história dos povos que, no seu tempo, a habitavam. Percebeu cedo que teria de viver doa sua relação com o Pai e focado na sua missão de O dar a conhecer. Foi fiel até ao fim no anúncio de uma boa novidade: Deus é Amor.
Jesus lembrou-nos que temos Deus como nosso Pai comum e que isto nos torna irmãos. (Laudato si’, 228)
 

Créditos de imagem: 14. set. 2018 - Russ Lewis protege os olhos de rajadas de vento e poeira
provocadas pelo Furacão Florence em Myrtle Beach, Carolina do Sul
, in noticias.uol.com.br