Espanto e agir consequente

Manuela Silva

Novembro 2018

Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez.

(José Tolentino Mendonça,  Elogio da sede, 2018)

PauloVI OscarRomeroFoi com as palavras desta epígrafe que Tolentino Mendonça deu início à sua primeira pregação dos exercícios espirituais dirigidos ao papa, cardeais e demais membros da Cúria, na quaresma deste ano. Subjacente a este inusitado convite-desafio, estava o texto do evangelho de João, a narrativa do encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço de Jacob e as suas intrigantes palavras “dá-me de beber”. Ele homem judeu e ela mulher samaritana…
Espanta-te ainda, espanta-te mais uma vez, são palavras que nos interpelam e desafiam. A nós que, tal como os seus primeiros destinatários, a dada altura da vida, parece que já vimos tudo, já vivemos e sabemos tudo, e olhamos para a realidade protegidos por aquilo que julgamos ser uma distância de um acumulado saber.
O espanto nasce da atenção que prestamos à vida nas suas múltiplas facetas, no plano pessoal e na relação com os demais seres, no espaço da proximidade e vizinhança ou na lonjura do mundo e do cosmos, no avanço do conhecimento e da tecnologia ou na política. Conjuga-se com a capacidade de surpresa e admiração, com sentimentos de medo ou de júbilo.
Por outro lado, o espanto suscita curiosidade e interrogação (o filosofar assenta alicerces no espanto!), mas ficará em défice de completude se não nos move ao discernimento contínuo e ao agir consequente.
O contrário do espanto é a apatia, o conformismo, a monotonia, a impassibilidade e o solipsismo, atitudes estas que são cada vez mais frequentes e vão a par com o excesso de informação e consequente incapacidade da respectiva assimilação, a desresponsabilização individual face à crescente complexidade da vida colectiva (os outros que resolvam!), à permanente distracção e à anestesia do marketing com que somos persistentemente influenciados, à aceleração e ao rapidismo da vida moderna.
O espanto é uma porta de entrada para o conhecimento e uma alavanca poderosa para mostrar novos caminhos a seguir. O espanto é, assim, o princípio da conversão pessoal. Esta não é algo que ocorre apenas num momento especial, como na queda do cavalo experienciada por Saulo em viagem para mais uma perseguição aos cristãos (Paulo, por que me persegues?). O espanto é a mola de uma conversão permanente, quando se dirige não apenas a algum fenómeno ou acontecimento excepcional, mas quando é vivido como atitude do quotidiano e suas rotinas.
A propósito da virtude do espanto e tendo presente o contexto do mundo contemporâneo e da nossa geografia específica, cabe, assim, deixar algumas interrogações:
- Estaremos em risco de perder o espanto ou de o relegar para as fases iniciais da vida, a infância e a adolescência? E, mesmo nestas, não estaremos mesmo a sufocar o espanto à nascença, fomentando, desde cedo, a dependência dos mais novos das máquinas?
- Todavia, se viermos a perder o espanto, seremos ainda humanos, seres scientes e conscientes?
- Então, se assim é, como cuidar e alimentar a virtude do espanto no mundo contemporâneo, reconhecendo que tal virtude comporta atenção, escuta, discernimento e agir consequente?
Concluirei esta reflexão com a evocação de dois testemunhos de espanto e agir consequente. Refiro-me ao recente reconhecimento canónico da santidade de dois homens, com trajectórias de vida distintas e pertencentes a contextos geográficos diversos, mas com um traço comum: a sua capacidade de espanto empático e compassivo diante da realidade com que foram deparando no exercício do seu ministério e seu discernimento à luz da fé, o que os conduziu ao agir consequente: o Papa Paulo VI e D. Óscar Romero.
Paulo VI, levando por diante a dificílima tarefa do Concílio Vaticano II, incluindo gestos proféticos de aproximação ecuménica (o beijo de pés do Patriarca Atenagoras de Constantinopla ou a solidariedade heroica com vítimas de perseguição política, designadamente no caso de Aldo Moro. Recordo, em sua memória, o belíssimo apelo dirigido às Brigadas Vermelhas: "(...) Peço-lhes de joelhos! Libertem Aldo Moro, simplesmente, sem condições, não tanto por causa da minha humilde e afectuosa intercessão, mas em virtude de sua dignidade como irmão comum na humanidade.(...)"
Dom Óscar Romero, colocando-se, responsavelmente, do lado dos camponeses de El Salvador vítimas da violência dos poderosos, denunciando os abusos, apoiando explicitamente as suas lutas e aceitando dar a sua vítima pela causa da justiça, como veio a acontecer. Destaco, em sua homenagem, as palavras pronunciadas na véspera do dia em que viria a ser assassinado, em plena celebração da Eucaristia: "Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão".
Ambos foram homens de espanto e de agir consequente. Ficam connosco como testemunhos e interpelação ao seguimento de Jesus de Nazaré, também Ele homem de espanto e agir consequente.

Créditos de imagem:

Pope Paul VI and Archbishop Oscar Romero pose together in an undated file photo,

in Photo courtesy of Oficina de Canonizacion de Mons. Oscar Romero.