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Escutar. Responder. Libertar.

Manuela Silva

Dezembro 2018

Este pobre clama e o Senhor o escuta (Sal 34, 7). Façamos também nossas estas palavras do Salmista, quando nos vemos confrontados com as mais variadas condições de sofrimento e marginalização em que vivem tantos irmãos e irmãs, que nos habituamos a designar com o termo genérico de “pobres”.

(Papa Francisco)

la gente pobre Jazmin Ruiz 2015É com estas palavras que o Papa Francisco começa a sua Mensagem para a celebração do dia Mundial dos pobres de 2018. Retomo-as, no início do novo ciclo litúrgico, como inspiração para este tempo de advento e da quadra natalícia que se avizinha.
Mergulhados e imbuídos, que estamos, na cultura dominante, corremos o risco de pôr entre parêntesis critérios evangélicos e ceder à tentação das propostas que todos os dias nos chegam pelos media e pelo marketing e fazer desta época o ápice do consumismo e do negócio, esquecendo os mais frágeis e descurando impactos sobre o cuidado a ter com a nossa casa comum.
Uma redobrada atenção aos mais pobres pode servir-nos de antídoto ao consumismo, ao desperdício e à cultura do descarte e abrir a nossa mente e o nosso coração aos valores da inclusão, da solidariedade e da fraternidade, em consonância com o evangelho.
Na mensagem de Francisco, encontramos, em espelho com a tradição bíblica, aquilo que deve ser a relação dos crentes com os mais frágeis e marginalizados, incluindo o Planeta em que habitamos.
Francisco destaca três verbos que exprimem a relação do pobre com Deus. São palavras-chave que devemos ter em conta: escutar, responder, libertar.
Em primeiro lugar, há que saber escutar o clamor dos pobres, o que implica prestar atenção às necessidades e aspirações dos membros mais frágeis da nossa família e da nossa sociedade e por estas marginalizados e excluídos, por razões de carência económica e não só. Também por doença ou deficiência física ou mental, por etnia e preconceito social, por solidão e défice de afecto ou de sentido de pertença, etc.
Nas nossas sociedades de avanço científico e abundância material, a situação de pobreza nos seus distintos rostos deveria ser um clamor, uma voz inquietante e interpeladora da nossa consciência individual e colectiva. Não raro, porém, é uma voz sumida e longínqua que mal se faz ouvir, uma presença relegada para as periferias. Em vez de escuta atenta, erguemos muros que afastam os pobres do radar dos nossos sentidos, da nossa convivência, dos nossos quotidianos. Neste advento, tomemos tempo para cuidar desta realidade, observando o que se passa na nossa família, emprego, vizinhança, sem esquecer a nossa comunidade eclesial de pertença.
O segundo verbo é responder. Não basta tomar conhecimento das situações de pobreza. Como diz o salmista, o Senhor não só escuta o clamor do pobre, mas também responde.
Responder é ir ao encontro da situação concreta, para aliviar ou curar as feridas, repor a justiça e agir sobre as causas da marginalização e da exclusão, ajudar a que o pobre readquira condições para uma vida com dignidade e inclusão social.
Mobilizemos os nossos recursos e a nossa vontade no sentido de ir procurar as respostas possíveis que abram caminho a uma ecologia integral.
O terceiro verbo é libertar. Nesta mensagem de 2018, Francisco lembra que a pobreza não é procurada, mas criada pelo egoísmo, a soberba, a avidez e a injustiça (…).
Em primeiríssimo lugar, precisamos de nos libertar de preconceitos correntes acerca do que é ser pobre e, consequentemente, ousar reconhecer as verdadeiras causas da pobreza. Em sociedades de prosperidade económica, tais preconceitos constituem o principal entrave a que as sociedades se mobilizem no sentido de dar atenção às causas estruturais da pobreza e, assim, se impede a adopção das políticas adequadas à sua erradicação.
Ser pobre é uma realidade multifacetada: com distintas manifestações, diferentes causas geradoras e problemáticas com contornos diversos. Há, porém, um denominador comum, o pobre, homem ou mulher, criança, adulto ou idoso, nacional ou estrangeiro, doente ou são, virtuoso ou não, é uma pessoa com irrevogável dignidade humana, que se encontra privada de direitos fundamentais e por isso requer a escuta, a resposta e o suporte dos seus concidadãos mais próximos bem como da sociedade civil e do estado.
Acresce que, para os discípulos de Cristo, as comunidades eclesiais e a Igreja no seu todo, o pobre é um irmão, uma irmã, um membro do Corpo de Cristo, que deve merecer acolhimento especial e ajuda. Como lembra o papa Francisco, (…) Longe dos discípulos de Cristo sentimentos de desprezo e de pietismo para com os pobres; antes, são chamados a honrá-los, a dar-lhes a precedência, convictos de que eles são uma presença real de Jesus no meio de nós. «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).
Neste mês de Advento e Natal, saibamos guardar estas palavras no nosso coração e, sobretudo, tomá-las como guia de conversão da nossa mentalidade, atitudes e comportamentos individuais, bem como motivação e orientação da nossa acção cívica e política, por uma sociedade mais justa, fraterna e inclusiva.

Créditos de imagem: La gente pobre. Jazmin Ruiz. 2015